O espantoso universo das engrenagens

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Justine caminha. Lentamente. Ao fundo, vê-se algo parecido com fios de lã emaranhados entre as árvores. Inúmeros fios pesados e escuros que se interligam, se conectam, se misturam. Nos pulsos e tornozelos da moça estão amarrados os mesmos fios grossos. Eles pendem e são arrastados pelo chão, conforme ela anda. Passos pesados. A cena do polêmico filme Melancolia, de Lars von Trier, leva a refletir sobre as conexões e teceduras que se criam por meio de escolhas e, consequentemente, sobre o peso que cada um carrega no desenrolar de sua história.
Há passos pesados, outros mais leves. Isso porque a vida oferece fios de todas as espessuras, prontos para serem tecidos e energizados. Cada pessoa escolhe uma conexão, uma sintonia, de acordo com os seus quereres, com a direção dos seus pensamentos e ações. “Uma coisa se engrena na outra, como num conjunto de engrenagens de um mecanismo aperfeiçoado ao máximo primor. Em meio a toda essa engrenagem se encontra, porém, o ser humano! Aparelhado com todos os meios para determinar a espécie da trama que deve resultar da sua atuação na Criação, manobrando o conjunto das engrenagens em diversas direções”, escreve Abdruschin, na obra Na Luz da Verdade. Colhemos inspirações, conectamos nossas vontades, atraímos quereres semelhantes, direcionamos fabulosas engrenagens. Se apenas olharmos para baixo, ficaremos paralisados de vontades tristes, pois essas são as que recebem maior reforço no mundo atual, engordam a olhos nus. Basta esticar uma pequena vontade triste e legiões delas vêm se agrupar.

 

Imagine uma pessoa rancorosa, que nutre pensamentos sombrios contra uma outra. Ela vai ficando enredada nos fios pesados que tece. Estes, por sua vez, alimentam-se em centrais da mesma tecedura. O emaranhado de fios pesados, que ela carrega, vai se multiplicando e chega ao ponto de não mais deixá-la enxergar. Cega de rancor, a pessoa que gerou tais pensamentos torna-se vazia de realidade. O amigo verdadeiro passa a ser seu inimigo imaginário e o cenário é de um mundo trágico que ela mesma criou, pobre de soluções. Um despretensioso fio inicial, que poderia facilmente ser cortado, se transforma em uma selva aprisionadora.
Mas, e se olharmos para cima? O cenário será completamente outro! Afinal, nem todos são Justine, nem todos sentem rancor. Se olharmos para cima... descobriremos um tear encantado. Lá a lã grossa e sombria, dá lugar a uma trama brilhante, sedosa, leve. O desejo corajoso pelo bem, a busca pelo aprimoramento pessoal, o desejo profundo de ser útil e de auxiliar... projetam-se na busca por fios similares e conectam-se com uma trama poderosa e fortalecedora, capaz de incendiar outros tantos pensamentos pequenos que buscam auxílio, capaz de apaziguar um mundo.

 

Ana caminha. Passos ausentes. Tem a mente entregue a um único pensamento. Dia e noite. Sua mente e seu coração estendem fios na busca diligente por uma solução. Os fios buscam no alto, feito pequenos raios, que querem fortalecer e ser fortalecidos. Após longa caminhada, acontece. Ao fundo, vê-se algo parecido com redes de poderoso brilho. Conexão! Essa não é uma cena de Lars von Trier, mas poderia muito bem ser real.

 

A pergunta é: quais cordões vamos nutrir com a nossa vontade? O cipoal formado por rancores, pelo malquerer, pelo sensualismo grosseiro? Ou a força do bem-querer, as conexões iluminadas? Podemos ser peças robotizadas de uma máquina humana, ou escapar das ninharias cotidianas em busca de uma conexão maior. Em que direção queremos manobrar as engrenagens da vida? Olhar para baixo ou para o alto? 


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